Quando me perguntam como encontrei o meu «lar americano», respondo que ele me encontrou. Foi basicamente assim, ou quase.
Os mesmos conhecidos que me ajudaram com o trabalho, numa primavera perguntaram-me se eu precisava de alojamento para o verão. Ou melhor, foi assim: «Olá, vais viver com a Lena». Ah, ótimo, isso explica tudo :P
Eu não sabia na altura quem era a Lena, nem a quantos quilómetros da cidade ficava a sua casa, nem que condições de pagamento para o quarto ela impunha. Os rapazes deram-me os contactos dela – a missão deles estava cumprida, restava-me a mim contactar a rapariga.
Contactei. Tudo acabou por ser mais simples do que pensava. Aceitaram receber-me, dar-me o pequeno-almoço, explicaram-me todas as condições, falaram de si próprios, explicaram-me como chegar ao destino – fiquei satisfeita. A minha nova casa ficava a 10 quilómetros do passeio marítimo de Bethany, em Frankford – são 20 minutos de bicicleta, 5 minutos de carro e mais de uma hora a pé – perfeito. Não é a opção mais próxima, mas pelo menos implica alguma atividade física («P» de proveito!). 90$ por semana pelos «aposentos». Por pessoa. Como se descobriu mais tarde, eu era a única estudante que a Lena aceitou receber para o verão (=> a cama no quarto é minha e só minha - não tenho de a partilhar com ninguém - e a cómoda é minha, e a cadeira, e... - só vantagens, por onde quer que se olhe).
Na manhã de 28 de junho, estava no limiar do meu novo «lar» com uma mala enorme numa mão e uma mochila cheia até ao topo na outra, a pensar em como ganhar coragem para tocar à campainha. Seja o que for – carrego no botão. Abre uma rapariga sonolenta que começa imediatamente a bombardear-me com perguntas às quais ela própria responde: «Então, como foi a viagem? Vamos tomar o pequeno-almoço? Vamos! Omelete! Com mirtilos? É a minha favorita, tens de provar! Põe a mala aqui! Deve ser pesada, imagino. Ah, de certeza que queres tomar um duche, vem, eu mostro-te onde está tudo! Não sejas tímida, eu não mordo! Vem, vem, porque é que ficaste aí parada!». A Lena revelou-se mais faladora do que eu imaginava.
Quando vi o quarto para onde a rapariga me levou com as palavras «bem, instala-te!», não podia acreditar no que via. Peguei imediatamente no telemóvel e enviei uma mensagem à minha mãe: «Estou nos aposentos da princesa. Tudo super!». E, de facto, o meu minúsculo «quarto» parecia o lugar onde vivia uma menina de um bom conto de fadas: janelas enormes com vista para as casas de «brinquedo» dos vizinhos, uma cama altíssima com um monte de cobertores e almofadas de todo o tipo, quadros do oceano nas paredes, alcatifa no chão, flores, espelho, cómoda, um armário enorme – e é aqui que eu vou viver? Não, a sério?!
Durante todo o ensino secundário joguei «The Sims». Criar Sims, apresentá-los, casá-los, ter filhos para eles – isso não me interessava, mas construir casas – sim! Cidades inteiras! Digitas o código secreto «motherlode» – e a alma começa a dançar: aqui haverá uma árvore, aqui uma piscina, aqui um baloiço, aqui vamos pôr uma lareira, aqui outra coisa e assim por diante. Podia jogar durante dias sem prestar atenção à minha mãe zangada. Pensava, se ao menos fosse assim em casa, aqui pões isto, ali aquilo. Pegas e mudas a tua cidade até a tornares irreconhecível. Ah...
A primeira coisa que me veio à cabeça ao chegar aos Estados Unidos foi: estou nos «Sims». Honestamente. Tudo é demasiado perfeito e não se parece com a realidade a que estou habituada. Ruas impecáveis, estradas sem um único buraco, relvados tão verdes, como se alguém os tivesse pintado com tinta resistente, e tão direitos, como se tivessem sido cortados com régua, casas demasiado «brinquedo» para viver lá dentro e demasiado bonitas para não duvidar que sejam reais. Em cada «comunidade» uma piscina e um campo de ténis – cabe-te a ti desfrutar de tudo isto. As pessoas correm de manhã e acenam com a mão ao ver rostos conhecidos e desconhecidos, as crianças passeiam cães exóticos, os adolescentes andam de longboard e os casais idosos empurram carrinhos cheios de coisas úteis e inúteis para a praia. Alguém que me belisque, ei!
Pergunto-me, que «códigos» usa quem controla tudo isto? Gostava de descobrir.










