América... Cada vez que ouço esta palavra, seja sentada numa aula de um professor, a ver as notícias da manhã ou simplesmente a conversar com amigos, o meu rosto ilumina-se com um sorriso e as fibras mais sensíveis da minha alma são tocadas, porque associo esta palavra às melhores férias da minha vida estudantil: o verão de 2015 e o verão de 2017. É, provavelmente, por isso que recordarei de forma especial o meu estatuto de «estudante» e pelo qual estarei grata aos meus pais até ao fim dos meus dias: por uma experiência tão inestimável que obtive; pela coragem com que me deixaram ir, a mim, uma rapariga de 19 anos, a filha mais nova da família, para terras distantes por um longo período.
Bem, apesar de esta não ser a primeira vez que participava no programa, as expectativas e a antecipação do verão que se aproximava não eram menores... para não falar do nervosismo durante a enésima entrevista no consulado para obter o J-1 Visa.
E aqui estamos, os documentos reunidos, as malas feitas, o visto obtido e voilà! Diante de mim abrem-se novamente as portas de outro continente, de outro mundo! Aqui tudo é diferente, começando pelos funcionários do metro, com quem te cruzas primeiro ao tentar chegar do aeroporto à cidade. No meu caso, foi um jovem de pele escura que dedicou alguns minutos a ajudar-me a comprar um cartão de transporte e a indicar-me no mapa o caminho mais curto para o ponto de que precisava. (Por falar nisso, a primeira vez na minha vida que andei de metro foi no meu primeiro ano de estudos em Almaty; então, como hoje, incluía 10-15 estações. No metro de Nova Iorque, o número destas estações chega a 500! A diferença é impressionante, não é?) E durante todo este tempo não notei no seu rosto nem a mínima nota de raiva ou descontentamento, e olha que por dia se aproximam dele centenas, ou talvez milhares de pessoas assim! Já que toquei no tema do aeroporto, não posso deixar de mencionar a fila para o controlo aduaneiro em Nova Iorque. Tenho a certeza de que as filas de todos os mausoléus do mundo, tomadas em conjunto, não se comparam com a que vi. Neste sentido, as pessoas na América são muito pacientes e corretas; a ninguém ocorre a ideia de passar o controlo mais rapidamente, sem fazer fila, de passar à frente da pessoa que está à frente, etc.
Ao chegar ao coração de Nova Iorque, Manhattan, encontrei-me com os meus amigos e dirigimo-nos para onde a vista nos levava, para passar o tempo até ao voo da manhã para as nossas pequenas cidades. No caminho encontrámos um rapaz de uns 20-22 anos. Lembro-me como se fosse hoje, chamava-se Shazam, e trazia uma guitarra pendurada ao ombro. E lembro-me igualmente bem da piada falhada que a minha amiga lançou: «De certeza que sabes todas as canções de cor, não é?». Shazam revelou-se um cantor bastante talentoso e cativante. Ao som da sua guitarra, percorremos uma enorme quantidade de ruas, tão parecidas entre si que dava a sensação de que estávamos parados no mesmo lugar e que os nossos pés se moviam sozinhos; falámos de vários temas, tocando, claro, na política e no novo presidente dos Estados Unidos! Chegou a manhã e foi hora de despedir-me de todos e dirigir-me para a minha cidade. Ocean City.
Ocean City não me recebeu de forma muito amável. Chuva, humidade, nebulosidade: tudo isto transportou-me instantaneamente com os pensamentos de volta à quente e ensolarada Almaty. Mas as nuvens sobre a minha cabeça dissiparam-se assim que cheguei ao meu trabalho! Receberam-me de uma forma que nem sequer recebem os parentes por afinidade no nosso país! Deram-me de comer e beber, perguntaram-me por todas as mudanças ocorridas na minha vida durante os meus dois anos de ausência e permitiram-me começar no dia seguinte. Trabalhava num restaurante tailandês como cozinheira. Conhecendo «de cor e salteado» todo o menu e os ingredientes de cada prato, não me custava muito esforço executar um pedido de qualquer complexidade. Mas apercebi-me de que me aborrecia. Aborrecia-me o ambiente tailandês, a língua tailandesa (que predominava), a cozinha, etc. Só não me aborreciam os doces que o chefe renovava diariamente sob a forma de gelado caseiro, doces tailandeses e churrasco. Apesar de trabalhar com eles pelo segundo ano consecutivo, um mês e meio depois da minha chegada decidi ir-me embora, mudei-me para uma cidade vizinha e a vida começou a brilhar com outras cores!
Rehoboth Beach reuniu todos os meus pensamentos e levou-me ao restaurante americano Crabby Dick's. Aqui fui anfitriã (hostess), e a tempo parcial, vendedora-caixa de roupa e lembranças. Para aqueles que não sabem, a anfitriã é a cara que recebe e senta os convidados no restaurante. Mas as minhas funções não se limitavam a isso; registar reservas, atender chamadas, tudo estava sobre os meus ombros. Felizmente, tinha colegas por perto que a qualquer momento vinham ajudar-me com um doce sorriso no rosto. Os americanos não são forretas com os elogios; cada passo de sucesso meu era recebido com as exclamações da minha gerente Debbie: «You did great job today, Saya!». Isto motivava-me ainda mais a realizar os meus deveres de forma impecável; entregava-me a 150% no meu trabalho, recebendo em troca amigos leais, respeito e amor. No início tinha vergonha de falar ao telefone, tinha medo de atender as chamadas dos convidados, porque depois de «Hi, it’s Saya talking. How can I help you?» segue-se uma infinidade de perguntas, para as quais com o tempo encontrei todas as respostas... As minhas raparigas Sarah, Emma e Jennifer ajudaram-me a superar todas as barreiras, ajudaram-me a tornar-me mais segura, mais educada, mais sorridente. Como é no nosso país? Se sorris a toda a gente, dificilmente te tomarão por uma pessoa normal, não é? Mas lá, sorrir é uma obrigação. Um sorriso torna o mundo mais brilhante: é a isto que se apegam os verdadeiros americanos. Darei um exemplo simples: se na loja o teu olhar cai acidentalmente sobre um estranho, sem dúvida te perguntará «Olá, como estás?». Sobre este tema também gostávamos de discutir no trabalho. Os residentes locais surpreendiam-se com o facto de no nosso país não ser costume cumprimentar pessoas que não conheces.
Uma vez, atendendo uma cliente na caixa, pusemo-nos a conversar, ajudei-a com a escolha de roupa, e descobriu-se que era da Califórnia, que tinha vindo passar umas férias em família de uma semana na nossa praia. Não tinha reparado na sua filha que estava parada ao seu lado, era tão minúscula, bem, uma bonequinha! Um pequeno anjo com cabelo escuro ondulado, olhos como cerejas e uma voz clara correu para mim, abraçou-me forte e disse: «Thank you so much! Bye!». A porta fechou-se e soltei uma lágrima. Dizer que me senti bem é pouco. Ouvir palavras de gratidão das crianças é duplamente agradável.
Cada manhã acordava com um entusiasmo enorme, corria para o trabalho e adormecia com o pensamento de voltar depressa para a minha querida equipa. O trabalho ficava a dois passos de minha casa, pelo que não tive problemas para me mover pela cidade. De vez em quando, ao sair para fazer compras, usava os transportes públicos: autocarros. Ao volante costumavam ir motoristas idosos de 60-70 anos, o que era extremamente invulgar para mim.
Se aprofundarmos um pouco o tema das compras, até uma camareira na América pode permitir-se uma mala da Michael Kors, cosméticos da MAC e sapatilhas da Nike. Um dos meus colegas no restaurante disse-me uma vez que tinha visitado 42 estados da América de 50. Tendo em conta que o seu salário mal difere do mínimo, considero que isso é muito bom.
Assim, o outono aproximou-se furtivamente. O meu último dia de trabalho. Começou a chover. Sim, outra vez chuva. Levei para o trabalho um bolo enorme, ofereci a todos os meus gerentes, anfitriãs e empregados de mesa. Ouvi uma quantidade enorme de palavras agradáveis, tentei conter-me para não desatar a chorar ali mesmo. Armando-me de coragem, fingia que não havia nada de especial naquele dia: um dia de trabalho normal, a azáfama habitual, os convidados habituais, a eu habitual... Infelizmente, a minha vontade só chegou até à porta do restaurante. E então desatei! Não conseguia parar as minhas lágrimas, fluíam ao ritmo da chuva e da música nos meus auscultadores. Só me consolava o pensamento: «Quem te disse que vês estas pessoas pela última vez? Voltarás, e não uma vez!»
À minha frente, meio mês de férias: descobrir a América pelo lado oeste! Talvez, pelo menos por isto, valesse a pena trabalhar sem descanso todo o verão! Filadélfia, as Cataratas do Niágara, o Grand Canyon, São Francisco, Los Angeles, Santa Bárbara, Las Vegas, Nova Iorque: tudo o que tive a sorte de ver com os meus próprios olhos este verão! Ao ver as Cataratas do Niágara, lembrei-me da lição de geografia de há dez anos na carteira da escola. A criança, impressionada pelas escalas e pelas belezas desta criação natural, agora estava parada mesmo à frente dela, sem acreditar no que viam os seus olhos, sem acreditar no que ouviam os seus ouvidos, que escutavam aquela força da água.
Cada cidade impressionou à sua maneira, claro, não faltaram os pontos negativos, o outro lado da moeda. Mas quem ou o que não o tem, não é? Por isso, na minha memória só ficou tudo o que é bom, positivo e brilhante.










